A importância do brincar na Educação Infantil segundo a BNCC
Ao longo da minha prática na educação infantil, aprendi que brincar não é apenas um momento de distração ou descanso entre atividades “mais importantes”. Pelo contrário: o brincar é a essência da infância e um dos pilares mais relevantes do desenvolvimento integral das crianças. Quando compreendo o brincar como linguagem, expressão e aprendizagem, passo a enxergá-lo como eixo central do trabalho pedagógico na Educação Infantil.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça essa concepção ao afirmar que a criança aprende e se desenvolve por meio das interações e das brincadeiras. Dessa forma, brincar deixa de ser um complemento e passa a ser reconhecido como um direito de aprendizagem, essencial para o desenvolvimento físico, emocional, social, cognitivo e cultural.
Neste artigo, abordo de forma aprofundada a importância do brincar na Educação Infantil segundo a BNCC, discutindo seus fundamentos teóricos, seus benefícios, sua relação com os campos de experiência, o papel do professor e as práticas pedagógicas que valorizam o brincar como eixo estruturante do currículo.
O que significa brincar na Educação Infantil?
Brincar é uma forma natural de a criança se relacionar com o mundo. Por meio da brincadeira, ela experimenta papéis, expressa sentimentos, elabora conflitos, desenvolve habilidades e constrói conhecimentos.
Segundo Kishimoto (2011), a brincadeira é uma atividade livre, espontânea e carregada de significado para a criança, permitindo a construção de aprendizagens de maneira prazerosa e contextualizada.
Na Educação Infantil, brincar não significa ausência de intencionalidade pedagógica. Pelo contrário, quando planejado e mediado, o brincar se transforma em uma potente estratégia educativa.
O brincar como direito de aprendizagem na BNCC
A BNCC reconhece explicitamente o brincar como um direito de aprendizagem das crianças da Educação Infantil. De acordo com o documento, são seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento:
- Conviver
- Brincar
- Participar
- Explorar
- Expressar
- Conhecer-se
O direito de brincar, segundo a BNCC (2017), garante que a criança possa:
“brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros, ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais”.
Isso demonstra que brincar não é opcional, mas sim um elemento central do currículo da Educação Infantil.
A concepção de criança na BNCC
Para compreender a importância do brincar, é fundamental entender a concepção de criança apresentada pela BNCC. A criança é vista como:
- Sujeito histórico e de direitos;
- Protagonista de seu processo de aprendizagem;
- Ativa, curiosa e criativa;
- Capaz de construir conhecimentos nas interações.
Nessa perspectiva, o brincar é a principal forma de a criança se expressar, investigar e aprender sobre si mesma e sobre o mundo.
Por que o brincar é tão importante na Educação Infantil?
O brincar é essencial porque promove o desenvolvimento integral da criança. A seguir, destaco os principais benefícios do brincar na Educação Infantil.
Desenvolvimento cognitivo
Ao brincar, a criança:
- Resolve problemas;
- Cria hipóteses;
- Desenvolve a imaginação;
- Explora conceitos matemáticos e linguísticos;
- Amplia o pensamento simbólico.
Brincadeiras de faz de conta, por exemplo, estimulam a linguagem, a memória e a criatividade.
Desenvolvimento emocional
O brincar permite que a criança:
- Expresse emoções;
- Elabore medos e frustrações;
- Desenvolva autoestima;
- Aprenda a lidar com regras e limites.
Segundo Winnicott (1975), é no brincar que a criança constrói sua saúde emocional, pois encontra um espaço seguro para se expressar.
Desenvolvimento social
Por meio das brincadeiras, a criança aprende a:
- Compartilhar;
- Respeitar o outro;
- Cooperar;
- Resolver conflitos;
- Conviver em grupo.
As interações lúdicas contribuem para a formação de valores sociais e éticos desde a primeira infância.
Desenvolvimento motor
O brincar também favorece o desenvolvimento motor amplo e fino, por meio de:
- Jogos de movimento;
- Brincadeiras ao ar livre;
- Atividades com objetos;
- Exploração do corpo no espaço.
Essas experiências são fundamentais para a coordenação motora, o equilíbrio e a consciência corporal.
O brincar e os campos de experiência da BNCC
A BNCC organiza o currículo da Educação Infantil em cinco campos de experiência, todos profundamente relacionados ao brincar.
O eu, o outro e o nós
Nesse campo, o brincar favorece:
- A construção da identidade;
- O reconhecimento do outro;
- A convivência respeitosa;
- O desenvolvimento da empatia.
Brincadeiras coletivas ajudam a criança a perceber-se como parte de um grupo.
Corpo, gestos e movimentos
O brincar possibilita que a criança:
- Explore seu corpo;
- Desenvolva movimentos;
- Experimente diferentes gestos;
- Amplie suas habilidades motoras.
Jogos, danças e brincadeiras tradicionais são fundamentais nesse campo.
Traços, sons, cores e formas
Por meio de atividades lúdicas, a criança:
- Explora materiais diversos;
- Produz desenhos, músicas e movimentos;
- Desenvolve a sensibilidade estética;
- Expressa criatividade.
O brincar artístico é essencial para a expressão e a imaginação.
Escuta, fala, pensamento e imaginação
As brincadeiras simbólicas e narrativas contribuem para:
- Ampliação da linguagem oral;
- Desenvolvimento da escuta;
- Construção de narrativas;
- Estímulo ao pensamento criativo.
Contação de histórias e faz de conta são exemplos importantes.
Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações
No brincar, a criança:
- Explora noções de tempo e espaço;
- Experimenta quantidades;
- Observa transformações;
- Constrói conceitos matemáticos e científicos iniciais.
Jogos de encaixe, construção e exploração da natureza são excelentes recursos.
O papel do professor no brincar
Na Educação Infantil, o professor não é apenas um observador, mas um mediador do brincar. Cabe a ele:
- Planejar ambientes ricos e estimulantes;
- Garantir tempo e espaço para brincar;
- Observar e registrar as aprendizagens;
- Intervir quando necessário;
- Propor desafios adequados à faixa etária.
O professor precisa compreender que sua intervenção deve respeitar a espontaneidade da brincadeira, sem engessá-la.
Brincar livre e brincar orientado: qual a diferença?
Brincar livre
O brincar livre permite que a criança:
- Escolha o que e como brincar;
- Exerça autonomia;
- Desenvolva criatividade;
- Expresse desejos e sentimentos.
Esse tipo de brincadeira é fundamental para o protagonismo infantil.
Brincar orientado
Já o brincar orientado envolve:
- Intencionalidade pedagógica;
- Propostas planejadas pelo professor;
- Objetivos de aprendizagem claros.
Ambos são importantes e devem coexistir no cotidiano da Educação Infantil.
Brincadeiras e jogos na rotina escolar
Uma rotina equilibrada deve garantir:
- Momentos diários de brincadeira;
- Variedade de materiais;
- Espaços internos e externos;
- Brincadeiras individuais e coletivas.
A BNCC orienta que o brincar esteja presente em toda a organização do tempo pedagógico, e não restrito a momentos específicos.
Brincar, avaliação e documentação pedagógica
A avaliação na Educação Infantil deve ser:
- Qualitativa;
- Processual;
- Baseada na observação.
Ao observar as brincadeiras, o professor consegue identificar avanços no desenvolvimento, interesses da criança e necessidades de intervenção.
Instrumentos importantes:
- Registros escritos;
- Fotografias;
- Portfólios;
- Relatórios descritivos.
Segundo a BNCC, a avaliação não tem caráter classificatório, mas formativo.
O brincar e a educação inclusiva
O brincar é uma poderosa ferramenta de inclusão. Ele:
- Favorece a participação de todas as crianças;
- Respeita ritmos e singularidades;
- Promove interações positivas;
- Reduz barreiras atitudinais.
Na Educação Infantil inclusiva, o brincar possibilita que crianças com e sem deficiência aprendam juntas, valorizando as diferenças.
Desafios para garantir o brincar na Educação Infantil
Apesar de sua importância, ainda existem desafios:
- Visão conteudista da educação;
- Pressão por alfabetização precoce;
- Falta de formação específica;
- Redução do tempo destinado ao brincar.
Superar esses desafios exige mudança de concepção pedagógica e alinhamento às orientações da BNCC.
Caminhos para valorizar o brincar na prática pedagógica
Com base na BNCC e na minha experiência, considero fundamentais:
- Formação continuada dos professores;
- Planejamento intencional;
- Organização de espaços lúdicos;
- Escuta atenta das crianças;
- Parceria com as famílias.
Quando a escola valoriza o brincar, ela respeita a infância em sua essência.
Considerações finais
Refletir sobre a importância do brincar na Educação Infantil segundo a BNCC reforça minha convicção de que brincar é aprender, é se desenvolver e é exercer direitos. A criança que brinca experimenta o mundo, constrói sentidos e desenvolve habilidades fundamentais para a vida.
Ao assumir o brincar como eixo central do currículo, a escola contribui para uma educação mais humana, significativa e respeitosa com a infância.

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